O que os seus pais entregaram a você, basta.

Exigimos aquilo que pensamos que nossos pais não puderam nos dar. “É só me dar um abraço”. “É só me dar R$ 5.000”. “É só dar menos atenção para minha irmã e mais atenção para mim”.

Quando vamos para a exigência, vamos para um lugar de quem está julgando que está faltando. 

Os nossos pais têm comportamentos que vem ao encontro das nossas expectativas e outros que contrariam elas.

Todo tempo isso acontece.

Exigimos, verbal ou mentalmente, que eles deveriam fazer algo agora, no futuro ou no passado. Ficamos presos no passado quando cobramos algo que já passou: “Como me deixaram trabalhar tão cedo tirando a minha infância?”.

Queixas como essa apontam não só para o que os pais não puderam fazer, para o vazio, como nos prende ao passado. 

Nossa mente tem vícios, padrões, maus hábitos. Um deles é procurar o que está errado nos nossos pais. Quando nos conectamos com o que está errado, acabamos esquecendo de coisas importantes, do que é valioso. Quando focamos no que não foi feito, deixamos de ver o que foi feito. 

A nossa mente produz medo. Esse medo alimenta mecanismos de proteção. Assim, olhar para aquilo que falta, que não está dando certo, é um movimento natural da mente. Quando nos concentramos nesse lugar que a mente naturalmente nos leva para nos proteger, nos colocamos em um estado de alerta, tirando conclusões precipitadas. Então nascem as queixas. 

Por proteção, aprendemos a identificar o que falta, o que pode nos colocar em risco. Essa atitude vira um padrão. Esse padrão de olhar para o que falta criar uma postura de queixa em relação à vida. Na queixa não conseguimos observar o que temos. Não conseguimos visualizar que o que realmente precisamos, nossos pais já deram. 

A única coisa que podemos exigir, é o que só eles puderam nos dar: a vida.

Não podemos exigir nada além disso. — “Ah! Mas ele podia ter me dado mais amor”. O amor não é dado pelos pais, o amor é tomado pelos filhos. Existem muitos casos em que os pais dão o amor e os filhos não tomam. 

Tínhamos e temos fantasias do que seria ideal para nós. Como em um conto de fadas, em que os pais fazem do jeito que imaginamos. Mas essa não é a realidade. Nosso amadurecimento enquanto seres humanos não é criar mecanismos para transformar os nossos pais em pais ideais que nós imaginamos ser. 

— “Ah! Mas é o mínimo que poderia ter feito. Meu pai nunca me colocou no colo. Não queria que ele fosse perfeito, mas que me colocasse no colo ao menos uma vez”.

Até mesmo esses dizeres montam pais ideais, pois ideal é o que idealizamos na nossa mente. Esquecemos que na mente dos nossos pais estão aspectos que nem imaginamos. 

Somos 95% inconsciente. Nosso pai pode ser 95% inconsciente dos motivos que o impediram de nos colocar no colo. Temos muito pouca noção do que se passa no âmago, na essência, psique dos nossos pais.

Antes de os nossos pais serem os nossos pais, foram filhos de alguém. Foram uma criança que viveram tudo que tinham para viver. Sabemos que quanto mais para trás andarmos, mais pesada, rude, fria a vida era. Mais difícil era lidar com a afetividade. Criamos uma exigência quando não enxergamos nossos pais como alguém que tem uma experiência anterior. Por imaginar que os pais são exclusivos para nós. 

Poor mature mother and small daughter learning indoors at home, poverty concept

O exercício que todo adulto deve fazer é lembrar-se diariamente que nossos pais têm uma história de vida. Temos um olhar pueril, infantil, quando exigimos. Somos traumatizados e vamos nos traumatizando em camadas, que vão aumentando. 

Uma mãe com dor forte na vesícula não consegue atender seu bebê que chora de fome por 5 minutos. Ainda que sejam 5 minutos, o bebê é traumatizado porque sente tudo. Não mede o tamanho da dor. E nesse instante, sob forte impacto emocional, é criada uma crença: “minha mãe não se importa comigo. Aqui me abandonam”.

A criança, traumatizada, vai ter um novo fato pela frente. Vai gritar pela mãe, que não vai escutar, e ativará aquela memória de que a mãe não está dando atenção. Cria-se então outra camada, uma nova crença: “eles não me amam, eles não se importam”. Como consequência, é feito de tudo para chamar a atenção dos pais para nos sentirmos amados. Nasce a exigência, o vazio. A obsessão pelo reconhecimento. 

Desejamos fazer tudo certo para que os nossos pais nos reconheçam, para que a sociedade nos reconheça. Tudo porque não nos sentimos amados. Não nos sentimos amados porque olhamos para o que nos faltou, sendo que os nossos pais nos deram tudo que eles tinham, que podiam, que tinham recurso. Entregam tudo. Se tinham um grãozinho, nos deram esse grãozinho. Mas queremos mais e não nos damos conta. 

A bem-aventurança, os relacionamentos harmoniosos, o corpo saudável, a paz de espírito não são diretamente proporcionais ao tanto que os nossos pais nos deram. Não temos mais saúde, uma esposa ou marido melhor, mais dinheiro se nossos pais nos deram mais. Se fosse assim, todas as pessoas que receberam muito, fariam muito das suas vidas. Conhecemos pessoas que receberam muito e terminaram com a sua vida e pessoas que receberam pouco e têm muito. O que determina os belos resultados na saúde, negócios, carreira e relacionamentos é a nossa capacidade de tomar tudo que os nossos pais tinham para nos dar. 

Ao sentir que recebemos tudo, do modo como os nossos pais puderam, nos sentimos preenchidos, nutridos, amados, cuidados, protegidos. Assim conseguimos cuidar da nossa vida e ter bons relacionamentos com os filhos, os clientes, os pais. Derramamos amor no mundo e ele volta para nós mesmos em forma de paz, harmonia, dinheiro, saúde e muito mais.

Quando sentimos tudo que recebemos, cria-se um estado de harmonia, aceitação e receptividade em relação a tudo que está disponível. Enquanto estamos na queixa, não conseguimos olhar tudo de bom que está acontecendo no nosso entorno. Então reconhecer o que estamos recebendo dos nossos pais nos acalma, nos deixa focados, determinados, saudáveis, positivos. A queixa vai nos tornado negativos, frágeis.

A queixa tira a nossa força para fazer o que precisa ser feito: cuidar de de nós mesmos. Pegar o que recebemos e seguir. Tanto é que tem pessoas que conseguem ser gratas aos pais que as entregaram para a adoção. São pessoas prósperas que não ficaram com os seus pais, mas têm gratidão aos olharem para as boas mãos que estiveram durante esse tempo. 

Quando conseguimos lembrar que o nosso pai nunca disse que nos amava, mas nunca deixou faltar água, luz, alimentação e levava para a escola, isso vai nos fortalecendo. Uma escolha que precisamos fazer, e vai transformar o nosso modo de observar as coisas, está na resposta para a seguinte pergunta: isso é o mínimo ou isso é tudo? O modo como vamos olhar o que os nossos pais puderam nos dar vai determinar inexoravelmente a vida que teremos. Ao insistir em pensar que o que os nossos pais fizeram foi o mínimo, experimentaremos uma vida muito aquém das nossas reais possibilidades. Ao entender que fizeram tudo, tomaremos tudo da vida. 

 Nós, enquanto pais, estabelecemos coisas ligadas a criança que nós fomos. Ficamos, em algum momento da nossa história de vida, esperando que os nossos pais, além de nos olharem e nos guiarem, adivinhem os nossos sonhos e realizem.

Quando os nossos pais, que não são livres e vieram para nos dar a vida e seguir a deles, não adivinham, realizamos uma promessa: buscar o sol para os nossos filhos. A nossa queixa em relação aos nossos pais é, então, transferida para os nossos filhos. Mas não como queixa, como dificuldade de permitir que eles se estabeleçam façam contato e suportem a vida como ela.

Os angustiados em deixar os filhos em paz, felizes, são aqueles que ainda se debatem com os seus pais. 

Só vamos adquirir o direito de fazer alguma exigência dos nossos pais quando deixarmos de procrastinar, estivermos absolutamente em nosso peso ideal, realizado tudo que gostaríamos em uma carreira, um casamento próspero, quando nossos filhos tiverem uma saúde, carreira e relacionamentos harmoniosos.

Se não estamos assim, não temos esse direito. Se estivermos assim, não faremos exigências.

Leia também o artigo: ACONSELHAR, CUIDAR, ENSINAR OS SEUS PAIS, NÃO É CARGA PARA VOCÊ!

Forte e carinhoso abraço!

Sobre o autor:

Marcel Scalcko ajuda as pessoas a viverem mais leve e realizar muito. É mentor há 24 anos. Já treinou mais de 110.000 pessoas. Descreveu as 9 Leis da Vida. Há mais de 30 anos estuda com os melhores mentores e treinadores do Brasil, Alemanha e Estados Unidos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

: